Recentemente me deparei com um comentário em um grupo virtual de artistas que produziu em mim um grande sentimento de revolta, o que de certa forma foi bom, pois me incentivou a levar adiante uma discurssão que sempre me atraiu muito: Arte x Técnica.
Um determinado artista, que por sinal, possui uma visão bem estereotipada da contemporaneidade, dizia que um trabalho esmerado e realista não poderia ser considerado como ARTE e sim TÉCNICA. Logicamente me apressei para defender todos os artistas, que assim como eu, se dedicam a arte representacional por opção e por gosto, e que não seguem os padrões pré-definidos pelos modismos contemporâneos, pois aprimora suas habilidades técnicas como instrumento de libertação da produção artística. A resposta a esse lamentável comentário é o texto que segue abaixo, que estendo a esse blog:
Dentro da perspectiva pluralista da produção contemporânea, duvido que alguém consiga definir com clareza, ou tenha a pretensão de descrever absolutamente o que é Arte. Há no mínimo algumas centenas de correntes e teorias a respeito do assunto, e nós, produtores dessa "coisa" que é chamado por alguns de "Arte", somos obviamente influenciados pela nossa produção, que por sua vez, é fruto de nossas percepções e experiências de vida, ou seja, não temos a menor imparcialidade em nossa definição do que é "ARTE". E por isso mesmo devemos conviver democraticamente com todas as variações de manifestações artísticas e estilos.
Definir o que é técnico e o que é arte se torna um campo mais arriscado ainda, pois entra em contradição com a produção dos nossos velhos mestres, assim como em muito da produção contemporânea. Composição, teoria da cor, textura, volume, direção, valor, forma... Tudo isso possui naturalmente uma definição e aplicação técnica, ainda que esteja dentro de um trabalho dito "Artístico, abstrato, conceitual e por isso não técnico". Todo estímulo visual será filtrado e interpretado pelos sentidos humanos com base em nossas próprias experiências.

Qualquer um pode aprender a desenhar razoavelmente bem, assim como qualquer um pode aprender a fazer composições abstratas, e dentro dessa variação, podemos ser criativos ou não... Tudo depende do treinamento, disposição e paixão que esta em jogo. Somos todos dotados, em maior ou menor grau, de um vocabulário visual, que poderá ser utilizado a gosto de quem o manuseia, e isso se chama “OPÇÃO", pois as ferramentas utilizadas para a produção dos trabalhos Realísticos, pejorativamente classificados como técnico pelos “conceituais arrogantes” são as mesmas ferramentas utilizadas pelos trabalhos elegantemente classificados como "Artísticos, abstratos e conceituais".
Acho muito adequado invejarmos quem tem habilidade técnica na representação realística, pois quem tem domínio técnico possui também liberdade de opção, e usa sua habilidade técnica a favor de sua criatividade. Ainda que domínio técnico não signifique necessariamente criatividade, essa última é desenvolvida a partir de meios que não anulam a primeira.
Eu particularmente, acho que em nome da "Arte" muita coisa ridícula já foi feita, já mataram cachorros, já penduraram cadáveres e etc... Tudo unicamente em nome da transgressão e choque, pois não temos mais tempo de sermos contemplativos no mundo contemporâneo, logo os trabalhos tem que ser cada vez maiores e chocantes, e tudo isso é claro, virou um tiro no pé dos próprios artistas, pois hoje a arte se volta para um público impaciente e marchands especuladores.
O meu real interesse nesse texto é questionar a falta de relação direta e sincera entre a obra e o espectador, entre arte e significado, entre conteúdo e valor, utilizando um alfabeto amplo e universal. Pois a arte contemporânea de uma forma geral, atualmente se reserva para um seleto grupo de “preparados”, que por comodidade e/ou interesse, fomenta esse sistema prolixo de especulação comercial autodestrutiva e produtora de lixo cultural.



